Roraimeira: Vozes, traços e cores - Página 04

Página sobre o contexto histórico do Brasil, relacionando a Semana de Arte Moderna de 1922 e a Ditadura Militar ao surgimento do Movimento Roraimeira. Inclui ilustrações de Anita Malfatti, Mário de Andrade e referência à música "Cálice".

Acessibilidade - Pág 04

Transcrição Textual da Audiodescrição:

Contexto

A página apresenta o contexto artístico, cultural e político brasileiro que antecede o surgimento do Movimento Roraimeira, estabelecendo relações entre o Modernismo brasileiro, iniciado nas primeiras décadas do século XX, a busca por uma expressão artística própria e o contexto de censura durante a Ditadura Militar.

A relação entre o Modernismo e o Movimento Roraimeira encontra respaldo nos depoimentos dos próprios integrantes do movimento e em pesquisas acadêmicas que identificam aproximações relacionadas à construção de identidade, à valorização das referências locais e à criação de uma expressão artística própria.

 

Leitura visual

A página tem formato vertical e fundo claro, com textura suave semelhante a papel envelhecido.

A composição é dividida em duas áreas principais. À esquerda, aparecem informações sobre a Semana de Arte Moderna de 1922. À direita, informações sobre a Ditadura Militar, entre 1964 e 1985.

Na parte inferior estão quatro personagens históricos representados em preto, branco e tons de cinza: Mário de Andrade, Anita Malfatti, Gilberto Gil e Chico Buarque.

Balões de fala ligados aos personagens reproduzem declarações e um trecho da canção “Cálice”.

 

Descrição

No alto à esquerda, a palavra “Brasil” aparece em grandes letras pretas.

Logo abaixo, o ano 1922 e o título “Semana de Arte Moderna” introduzem o primeiro bloco histórico.

À direita do título Brasil, um texto relaciona a influência do Modernismo ao movimento que surgiria em Roraima nos anos 1980, destacando a valorização da paisagem local, da cultura indígena e dos modos de vida amazônicos.

Abaixo do título sobre a Semana de Arte Moderna há dois quadros retangulares.

O primeiro explica a intenção de romper com modelos acadêmicos europeus e construir uma produção artística voltada para a realidade brasileira.

O segundo apresenta Anita Malfatti e Mário de Andrade entre os protagonistas do Modernismo brasileiro e da renovação artística associada à Semana de 1922.

Mais abaixo aparece Anita Malfatti, de frente para um cavalete, segurando materiais de pintura.

Dois balões separados reproduzem declarações da artista.

No primeiro:

“Eu pinto aspectos da vida brasileira...
Faço arte popular brasileira.”

No segundo:

“Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade...
Não sou mais moderna nem antiga, mas escrevo e pinto o que me encanta.”

Na parte inferior esquerda está Mário de Andrade, sentado diante de uma mesa, escrevendo sobre uma folha de papel.

Seu balão diz:

“Nós temos que criar uma arte brasileira.”

Na metade direita da página aparece o período “1964–1985”, seguido do título “Ditadura Militar”.

Abaixo estão três quadros retangulares.

O primeiro contextualiza o ano de 1980, informando que, embora a repressão violenta tivesse diminuído em comparação aos anos de chumbo, a censura continuava atuando sobre a música, o teatro, o cinema e a imprensa.

O segundo informa que artistas utilizavam metáforas e ironias para criticar o autoritarismo, a desigualdade e os padrões sociais vigentes.

O terceiro apresenta a música “Cálice” e seu duplo sentido sonoro com a expressão “cale-se”, relacionando a composição à crítica à censura e à repressão sob a forma de uma oração bíblica.

Na parte inferior direita estão Gilberto Gil e Chico Buarque durante uma apresentação musical. Gil segura um violão diante de um microfone. Chico aparece ao seu lado, também diante de um microfone.

Um balão acima dos artistas reproduz:

“Pai, afasta de mim esse cálice...”

Abaixo da cena, uma legenda informa:

“Gilberto Gil e Chico Buarque, ‘Cálice’ (1973).”

Ao centro do rodapé aparece o número da página: 04.

 

Leitura dos textos

Brasil

1922 — Semana de Arte Moderna

“A influência de 1922 é evidente no movimento que surgia em Roraima nos anos de 1980, quando artistas roraimenses, como resposta à ‘invisibilidade’ cultural de Roraima, sentiram a necessidade de valorizar a paisagem local (lavrado, serras, nossa gente), a cultura indígena e os modos de vida amazônicos.”

“Liderada por artistas em São Paulo, visava romper com o academicismo europeu que copiava modelos estrangeiros, propondo uma arte que ‘redescobrisse’ o Brasil.”

“Anita Malfatti e Mário de Andrade estiveram entre os protagonistas do Modernismo brasileiro e da renovação artística associada à Semana de 1922.”

Anita Malfatti:

“Eu pinto aspectos da vida brasileira... Faço arte popular brasileira.”

“Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade... Não sou mais moderna nem antiga, mas escrevo e pinto o que me encanta.”

Mário de Andrade:

“Nós temos que criar uma arte brasileira.”

1964–1985 — Ditadura Militar

“Em 1980, embora a repressão violenta tivesse diminuído em comparação aos anos de chumbo, a censura continuava atuando, especialmente sobre a música, o teatro, o cinema e a imprensa.”

“Artistas driblavam a censura usando metáforas e ironias para criticar o autoritarismo, a desigualdade e os padrões sociais vigentes.”

“A música ‘Cálice’ utiliza o duplo sentido sonoro com ‘cale-se’ para criticar a censura e a repressão, sob a forma de uma oração bíblica.”

Gilberto Gil e Chico Buarque:

“Pai, afasta de mim esse cálice...”

Legenda:

“Gilberto Gil e Chico Buarque, ‘Cálice’ (1973).”

 

Fim da página.

 

Curiosidades/Contexto Histórico

Modernismo e Movimento Roraimeira

A Semana de Arte Moderna de 1922 tornou-se um marco da renovação artística brasileira e da busca por novas formas de representar o país a partir de suas próprias referências culturais.

A relação entre essa experiência e o Movimento Roraimeira não é apenas uma aproximação criada pela narrativa da HQ. Ela aparece nos depoimentos dos próprios integrantes do movimento e em pesquisas acadêmicas dedicadas à produção cultural roraimense.

Eliakin Rufino relacionou diretamente o Roraimeira à tradição modernista, enquanto diferentes estudos identificam aproximações entre os dois movimentos, especialmente na busca pela construção de uma identidade artística própria, na valorização das referências locais e na reelaboração de diferentes influências culturais.

Em Roraima, esse processo ganhou características próprias a partir da paisagem do lavrado, das referências indígenas, da Amazônia, das migrações e das experiências culturais de um território marcado pela diversidade.

Anita Malfatti e Mário de Andrade

As duas declarações de Anita Malfatti apresentadas na página pertencem a registros distintos de sua trajetória. Por isso, foram colocadas em balões separados.

A primeira relaciona sua pintura aos aspectos da vida e do povo brasileiro. A segunda pertence a uma carta escrita em 1955, na qual Anita reflete sobre seu percurso artístico, as técnicas que experimentou e a liberdade de pintar aquilo que a encantava.

A declaração de Mário de Andrade — “Nós temos que criar uma arte brasileira” — é uma fala documentada do escritor e substituiu, na versão revisada da página, uma síntese anteriormente utilizada para representar seu pensamento.

“Cálice” e a censura

Durante a Ditadura Militar brasileira, diferentes manifestações culturais estiveram submetidas a mecanismos oficiais de censura.

Em 1973, Chico Buarque e Gilberto Gil compuseram “Cálice”. A composição utiliza o jogo sonoro entre cálice e cale-se, estabelecendo uma relação entre a imagem de uma oração bíblica e o silenciamento imposto pela repressão.

A letra foi submetida à censura federal e vetada naquele ano. O documento oficial referente ao processo encontra-se preservado pelo Arquivo Nacional.

A censura também alcançou Roraima

Esse contexto não estava distante da experiência dos artistas roraimenses.

Pesquisa acadêmica baseada em depoimento de Eliakin Rufino e em documentos preservados em seu acervo pessoal registra que os artistas precisavam submeter previamente à fiscalização os roteiros e conteúdos previstos para determinados espetáculos.

Um dos documentos reproduzidos na pesquisa refere-se ao poema “Dentes Salientes”, de Eliakin Rufino, e contém o carimbo do Ministério da Justiça — Censura Federal. O documento é datado de junho de 1984, período de consolidação inicial do Movimento Roraimeira.

Segundo Eliakin, a palavra “desafeto” despertou questionamento do censor. O artista foi chamado para explicar seu significado e, após o esclarecimento, o poema foi liberado.

O episódio não significa que “Dentes Salientes” tenha sido definitivamente proibido. Ele demonstra, porém, que os mecanismos oficiais de controle e censura ainda alcançavam a produção cultural realizada em Roraima em 1984.

Esse registro aproxima o contexto nacional apresentado na página da experiência concreta de um dos protagonistas do Movimento Roraimeira, justamente no período em que o movimento começava a se consolidar.