Roraimeira: Vozes, traços e cores - Página 15

Página ilustrada da canção “Cidade do Campo”, com buritis, igarapé, paisagem de Boa Vista, Eliakin Rufino, figura indígena e Monte Roraima.

Acessibilidade - Pág 15

Transcrição Textual da Audiodescrição:

Contexto
A página 15 apresenta uma interpretação ilustrada da canção “Cidade do Campo”, com composição de Armando de Paula e Eliakin Rufino e ilustrações de Franco Soares.

Depois de a página anterior destacar a trajetória de Eliakin como compositor e a importância de “Cidade do Campo”, esta página transforma alguns de seus versos em imagens. A composição estabelece um diálogo entre Boa Vista, o lavrado, os buritis, os igarapés, a cultura indígena e o Monte Roraima, unindo paisagem urbana, natureza e imaginário regional.

 

Leitura visual
A página é vertical, colorida e organizada em três grandes cenas, interligadas por notas, pautas e notas musicais.

No alto, o título “Cidade do Campo” aparece em grandes letras brancas com contorno escuro. Ao lado, uma caixa identifica os compositores e o ilustrador.

A primeira paisagem mostra o lavrado em tons verdes, ocupado por diversos buritizeiros. À esquerda, um grande buriti aparece em primeiro plano, com folhas abertas em forma de leque e um cacho de frutos do buriti.

Um igarapé atravessa horizontalmente a paisagem. Nele, uma pessoa vista de costas navega em uma pequena embarcação alaranjada, utilizando um remo.

Na cena central, aparece uma vista panorâmica e estilizada de Boa Vista ao entardecer. Entre os elementos urbanos estão representados monumentos e construções da cidade, além da bandeira de Roraima. O céu apresenta tons amarelos e alaranjados próximos ao horizonte.

Na parte inferior, a paisagem se transforma em uma cena noturna. À esquerda está uma caricatura de Eliakin Rufino, de corpo inteiro. Ele usa óculos redondos, cabelos grisalhos presos no alto da cabeça, roupa branca, colar e sapatos marrons.

Ao fundo aparece uma grande formação de topo plano, representando o Monte Roraima, sob um céu escuro com a Lua.

À direita, uma grande figura de Makunaima, usando cocar azul e adornos corporais, surge sobre a paisagem. Ele tem pinturas no rosto e nos braços e estende uma das mãos para a frente.

Mais abaixo, uma pequena figura humana (Eliakin Rufino), vista de costas e com os braços abertos, contempla o Monte Roraima.

Notas musicais e pautas curvas percorrem as laterais e a parte inferior da página, integrando todas as cenas.

Ao centro do rodapé está o número da página: 15.

 

Descrição
A página transforma os versos de “Cidade do Campo” em uma viagem visual por diferentes representações de Roraima.

Na primeira cena, o buriti, o campo e o igarapé traduzem literalmente elementos citados na letra. A pequena embarcação reforça a relação entre a população e os cursos d'água da região.

A segunda cena desloca o olhar da natureza para a cidade. Boa Vista é representada por meio de uma composição panorâmica que reúne diferentes marcos urbanos em uma única paisagem. A imagem estabelece o contraste sugerido pelo próprio título da canção: uma cidade integrada ao campo e à natureza que a cerca.

Na cena inferior, a narrativa passa do espaço físico para o universo simbólico. O Monte Roraima surge associado à figura indígena e aos versos que mencionam os “mitos no vento” e “Makunaima”.

Eliakin aparece ao lado da composição, enquanto as notas musicais atravessam toda a página. Sua presença reforça que as paisagens são construídas a partir dos versos da canção.

A pequena figura (Eliakin Rufino) diante do Monte Roraima, com os braços abertos, encerra visualmente a página e representa o pensamento que, segundo a letra, “voa” sobre a montanha.

 

Leitura dos textos

Título:

“Cidade do Campo”

Na caixa superior:

“Composição:
Armando de Paula / Eliakin Rufino
Ilustração: Franco Soares”

Na primeira paisagem:

“Buriti do campo que prazer”

E:

“Igarapé tão bom te conhecer”

Sobre a paisagem de Boa Vista:

“Boa Vista vai onde a vista vê
No verde do campo vi você”

Na cena inferior:

“Correm mitos no vento
Pedra de Makunaima”

E, próximo à figura que contempla a montanha:

“Voa meu pensamento
Sobre o Monte Roraima”

Fim da página.

 

Curiosidades/Contexto Histórico

“Cidade do Campo” tem letra de Eliakin Rufino e melodia de Armando de Paula. Conforme apresentado na página anterior da HQ, a composição venceu o Festival do Centenário de Boa Vista, em 1990, promovido pela Prefeitura, e tornou-se uma das obras mais conhecidas do repertório dedicado à capital roraimense.

O próprio título “Cidade do Campo” sintetiza uma característica marcante de Boa Vista: uma cidade situada em meio ao lavrado roraimense, paisagem de campos e savanas que diferencia grande parte do território de Roraima da imagem de floresta densa normalmente associada à Amazônia.

O buriti, destacado logo no início da página, é uma palmeira muito presente nas paisagens roraimenses, especialmente em áreas úmidas e próximas a cursos d'água. Já o termo igarapé, de origem indígena, é amplamente utilizado na Amazônia para designar pequenos cursos d'água.

A referência a Makunaima aproxima a música das cosmologias dos povos originários do circum-Roraima. Presente nas narrativas indígenas muito antes da literatura modernista brasileira, Makunaima está ligado à origem e às transformações da paisagem, tendo o Monte Roraima como um dos principais lugares de sua memória ancestral.

O Monte Roraima, representado na parte inferior, localiza-se na região de fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana e possui profundo significado cultural e espiritual para povos indígenas da região.

Assim, “Cidade do Campo” constrói uma representação de Boa Vista que ultrapassa seus monumentos e sua área urbana. Cidade, lavrado, água, buriti, memória indígena e Monte Roraima aparecem como partes de uma mesma identidade territorial.

A Lenda de Makunaima – segundo os povos originários

Muito antes de aparecer na literatura brasileira, Makunaima já habitava as narrativas ancestrais dos povos indígenas da região do Monte Roraima. Sua história faz parte das cosmologias dos povos do circum-Roraima e é transmitida oralmente há gerações. Por isso, existem diferentes versões da narrativa.

Em uma das tradições Pemon/Taurepang, Makunaima aparece associado a irmãos ancestrais que percorriam a região do Monte Roraima. Durante suas andanças, descobriram, seguindo animais como a cutia, uma árvore extraordinária chamada Wazaká ou Wadaka, a Árvore do Mundo, que produzia diferentes tipos de frutos e alimentos.

Makunaima derrubou a grande árvore. De seu tronco passaram a jorrar enormes quantidades de água, provocando uma inundação e dando origem, em diferentes versões da tradição, às águas e aos rios da região. O que restou do gigantesco tronco tornou-se o Monte Roraima, enquanto outros vestígios da transformação permaneceram inscritos nas serras, pedras e paisagens do território.

Assim, o Monte Roraima não é apenas uma formação geológica nessas cosmologias: ele integra um território ancestral e sagrado, no qual a paisagem guarda a memória dos acontecimentos e dos seres do tempo das origens. O artista indígena Macuxi Jaider Esbell, ao tratar de Makunaimî, referia-se ao Monte Roraima como o tronco da grande árvore Wazaká e destacava a continuidade dessa história entre os povos da região.

Importante: este Makunaima das narrativas indígenas não deve ser confundido com o personagem “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, criado por Mário de Andrade em 1928. O escritor brasileiro conheceu narrativas indígenas registradas pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg e as reelaborou literariamente. Makunaima, porém, pertence a tradições indígenas muito anteriores ao romance modernista.

Referências:
Makunaima - Mitos, imagens, personagens
https://ppgsa.ifcs.ufrj.br/en/research/projects/1851/makunaima

Povo Taurepang
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Taurepang

Makunaimã - O mito através do tempo
https://www.jaideresbell.com.br/site/2019/09/13/makunaima-o-mito-atraves-do-tempo

 

 

Eliakin Rufino canta "Cidade do Campo"