Roraimeira: Vozes, traços e cores - Página 21

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Acessibilidade - Pág 21

Transcrição Textual da Audiodescrição:

 

Contexto
A página 21 dá continuidade à interpretação visual da canção “Cruviana”, de Neuber Uchôa.

Depois de a página 20 trabalhar principalmente as ideias de território, rio, comunidade e pertencimento, esta página aproxima a música do cotidiano e dos sabores de Roraima, com referências ao chibé, à carne seca, à damurida, ao café e à rede.

A composição culmina no verso “Tua tez me cruviana”, representado visualmente pela figura feminina da Cruviana, personificação do vento frio das noites e madrugadas roraimenses e personagem do imaginário popular regional.

 

Leitura visual
A página é vertical, colorida e dividida em duas grandes áreas.

Na metade superior há uma paisagem aberta, com vegetação verde e um curso d'água atravessado por uma ponte de madeira suspensa por cabos. Ao fundo aparece uma grande formação rochosa (Pedra Pintada).

À esquerda, uma caricatura de Neuber Uchôa aparece sorrindo enquanto segura um prato e leva comida à boca.

Em primeiro plano, uma grande panela contém peixe e caldo (Damurida). Ao lado estão outros alimentos servidos em recipientes rústicos, além de pequenas pimentas vermelhas.

À direita, um jovem agachado prepara alimento sobre uma pequena fogueira. Peixes estão dispostos próximos ao fogo.

Dois balões reproduzem versos que fazem referência ao chibé com carne seca e à Damurida.

A metade inferior tem fundo predominantemente azul-escuro.

No centro há um quadro que representa um ambiente simples e acolhedor, coberto por palha. Neuber aparece deitado em uma rede, segurando uma pequena xícara de café. Um violão está apoiado junto à rede e uma garrafa térmica verde aparece sobre uma superfície próxima. Ao fundo, vê-se a paisagem noturna.

À esquerda desse quadro, outra caricatura de Neuber o mostra de corpo inteiro, cantando e tocando violão.

Toda a lateral direita da página é ocupada pela figura de uma mulher formada em tons de azul. Ela aparece de perfil, com olhos fechados, rosto voltado levemente para cima e longos cabelos que parecem se transformar em correntes de vento.

Linhas brancas curvas percorrem seus cabelos, rosto e corpo, reforçando a impressão de movimento e de que a personagem é constituída pelo próprio vento.

Um grande fluxo branco atravessa a página desde a região da mulher em direção a Neuber na rede, sugerindo a passagem da cruviana durante a noite.

Notas, claves e pautas musicais aparecem espalhadas pela composição.

Na base estão o número da página, 21.

 

Descrição
A página transforma elementos simples da vida cotidiana em símbolos de identidade e pertencimento.

Na parte superior, a comida ocupa o centro da narrativa. Neuber prova um prato com Damurida enquanto a ilustração apresenta referências ao chibé, à carne seca, ao peixe, à pimenta e à Damurida.

A paisagem ao fundo mantém esses alimentos ligados ao território. O rio, a vegetação, a ponte e a formação rochosa criam uma continuidade entre natureza, alimentação e cultura.

A narrativa então se desloca para a noite.

Neuber aparece descansando em uma rede de couro de boi, representada na ilustração como referência à ‘capitiana’ mencionada no verso, enquanto toma café, com seu violão ao lado. A cena transmite intimidade e tranquilidade e transforma hábitos cotidianos em parte da representação afetiva de Roraima construída pela canção.

É nesse ambiente que surge a figura feminina da Cruviana.

A mulher azul não aparece como uma personagem comum: seu corpo e seus longos cabelos se confundem com linhas de vento. A corrente de ar atravessa a página e alcança a rede onde está Neuber.

Assim, o verso final — “Tua tez me CRUVIANA” — ganha uma representação visual: Cruviana deixa de ser apenas o nome do vento e assume a forma poética de uma mulher que envolve o personagem.

A página conecta, portanto, paisagem, alimentação, hábitos cotidianos, música e imaginário popular roraimense.

 

Leitura dos textos

Na parte superior:

“Meu chibé com carne
seca te provoca”

E:

“Minha Damurida
queima e te ensopa”

Na metade inferior:

“Teu café na rede,
mi Capitiana”

E, no grande balão inferior:

“Tua tez me CRUVIANA”

 

Fim da página.

 

Curiosidades/Contexto Histórico

A letra de “Cruviana” utiliza referências muito próximas do cotidiano roraimense. Comida, paisagem, rio, rede, café e vento deixam de ser apenas elementos descritivos e passam a construir uma relação afetiva com o território.

O chibé, tradicional na Amazônia, é uma preparação simples à base de farinha de mandioca e água, encontrada em diferentes tradições alimentares da região.

A damurida é uma preparação tradicional indígena muito associada a Roraima, feita geralmente com peixe ou carne e bastante pimenta. Sua presença na canção aproxima a música de práticas alimentares dos povos originários e da cultura regional.

No verso “Teu café na rede, mi capitiana”, Neuber Uchôa emprega o regionalismo “capitiana”. Documentação da Câmara dos Deputados identifica a Capitiana como rede de dormir artesanal típica de Roraima, confeccionada em couro não curtido de bovinos. A referência também aparece nas artes visuais: o artista macuxi Jaider Esbell criou a instalação “A capitiana conta a nossa história”, utilizando uma rede de couro de boi como elemento central. A HQ representa visualmente o verso por meio desse objeto tradicional.

A Capitiana também faz parte da memória pessoal do autor desta HQ. Franco Soares recorda ter acompanhado, durante sua infância e convivência no interior de Roraima, seu avô, Jesus Nazareno de Souza Cruz, confeccionando artesanalmente redes Capitianas em couro de boi. A representação desse elemento na página nasce, portanto, não apenas da interpretação do verso de Neuber Uchôa, mas também de uma referência cultural vivenciada pelo próprio autor.

A página também estabelece uma ligação interessante com a trajetória de Neuber apresentada anteriormente. O regionalismo defendido pelo artista não depende apenas de citar lugares conhecidos. Ele também pode surgir das experiências comuns, dos sabores, dos hábitos, das palavras e das sensações associadas ao lugar.

É nesse ponto que o último verso conduz ao elemento que dá nome à canção: Cruviana.

 

A Lenda da Cruviana

Na tradição popular de Roraima, a Cruviana está associada ao vento frio que percorre o lavrado durante a noite e, principalmente, nas madrugadas.

Em uma das versões da lenda, esse vento é personificado por uma mulher encantada, que percorre silenciosamente as noites roraimenses.

Cruviana atravessa campos e serras e chega suavemente aos lugares onde as pessoas descansam. Conta-se que ela se aproxima especialmente dos forasteiros que dormem em redes, envolvendo-os com seu vento frio durante a madrugada.

Aos poucos, a presença do vento se transforma na imagem de uma mulher encantadora. Cruviana seduz o viajante e cria nele uma ligação profunda com aquela terra.

Quando chegam os primeiros raios do sol, ela desaparece.

Ao despertar, porém, o viajante já não é o mesmo: teria sido encantado por Cruviana e se apaixonado definitivamente por Roraima.

Por isso, na narrativa popular, Cruviana pode representar mais que um fenômeno da natureza. Ela se torna uma personificação poética do encantamento e do pertencimento à terra roraimense.

Na página 21, essa ideia aparece visualmente na grande mulher azul. Seus cabelos se transformam em vento e atravessam a cena até alcançar Neuber descansando na rede.

Dessa forma, o verso:

“Tua tez me CRUVIANA”

ganha também uma leitura visual: Cruviana envolve, toca e encanta.

 

Fonte/Referência:

Lendas e Músicas regionais de Roraima
https://educapes.capes.gov.br/bitstream/capes/744812/2/LENDAS%20E%20M%C3%9ASICAS%20REGIONAIS%20DE%20RORAIMA.pdf